A história e a sobrevivência dos povos indígenas brasileiros têm sido marcadas pela brutalidade, escravidão, violência, doenças e genocídio. Estima-se que antes da chegada dos colonizadores, o Brasil já era habitado por cerca de 11 milhões de pessoas, distribuídas em cerca 2.000 grupos. Hoje, os povos originários têm uma população de 896 mil pessoas; desse total, de acordo com o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE, 2010), 572 mil indígenas (63,8 %) viviam na área rural, 517 mil (57,5 %) moravam em Terras Indígenas (TI), constituindo 305 grupos étnicos, falantes de 274 línguas distintas. Nessa diversidade cultural e linguística, cada povo tem sua própria organização social, seus saberes e suas práticas, suas medicinas e suas línguas.
Tradicionalmente, os saberes indígenas são transmitidos pelos mais idosos, por meio de narrativas. Os narradores dominam o discurso oral, o ato de narrar e são responsáveis por zelar e cuidar do saber e sua transmissão para as gerações mais jovens, perpetuando as formas de ser e viver em seu mundo. A COVID-19 tem atacado gravemente as populações indígenas, tirando a vida de muitos anciãos, impactando na vida de cada povo, em seus territórios, seus lares e comunidades. Isto tem impactado não apenas na preservação da memória e preservação/transmissão de conhecimentos, mas também na sua resiliência e nas lutas políticas pelos direitos de ser indígena, de ter suas terras demarcadas, e no acesso à saúde e educação. Por isso, as “mortes indígenas no Brasil não são apenas números, são corpos com memórias, histórias e vozes coletivas. A cada indígena que se vai é uma voz que deixa de entoar o canto. É uma mão que deixa de bater o maracá. Do luto à luta. Não é somente número, cada corpo Indígena tem uma encantaria ancestral. A cada Indígena morto, morre parte da nossa história coletiva” (Célia Xacriabá).
Muitos povos (por exemplo, Amondawa, Awetý e Huni Kuĩ) compreendem a vida como um processo de aprendizado, pontuado por diferentes estágios da vida, pensados como categorias de status social e não faixas etárias distribuídas em uma linha temporal. Cada estágio da vida requer conhecimentos, aprendizados e responsabilidades sociais apropriadas e necessárias àquele momento do ciclo da vida. As transições entre esses estágios podem envolver ritos de passagem e/ou aprendizados adquiridos para que se dê o processo de ritualização. Além disso, cada povo possui processos específicos, com diferentes ritos e duração.
O conhecimento é adquirido ao longo dos diferentes estágios. Se um(a) jovem tiver adquirido conhecimento e responsabilidade de "adulto" (por exemplo: aprendeu a ser pescador qualificado ou assumiu responsabilidades domésticas com um nível de conhecimento reconhecido por toda a comunidade), este(a) jovem será considerado e respeitado(a) como um(a) adulto(a), pelo menos a esse respeito. Porém, continua a ser um(a) jovem inserido(a) em um determinado estágio de vida. A vida não é concebida como progressão em uma linha temporal, mas como uma sequência diferenciada de estados de ser e saber.
Então, quando os indígenas não conseguem preservar e manter seus territórios, seus costumes e práticas sustentáveis, os seus modos de ser, eles tendem a desaparecer. Os territórios, os costumes e as práticas devem ser as referências para o pleno exercício da capacidade desses povos no sentido de gerir seus processos de educação, promoção da saúde, economia, alimentação, apropriação de saberes e escolhas quanto ao que pretendem construir para as futuras gerações. Desse modo, advogamos pelo etnoconhecimento, que pressupõe a escuta de demandas comunitárias, o estímulo e a mobilização das comunidades para buscar compreensões mais profundas e consensuais a respeito das causas geradoras de problemas percebidos. Isso implica buscar, conjuntamente, soluções e instrumentos que considerem as cosmovisões e as práticas dos povos envolvidos. O envolvimento das comunidades nas práticas do bem-viver é a base do etnoconhecimento, portanto, é necessário integrar mestres, anciãos, curandeiros, parteiras, pajés, xamãs, rezadores, benzedores e outros atores que detêm os saberes tradicionais, numa relação dialógica e de equidade entre os conhecimentos de outros povos, e aqueles que ainda predominam no âmbito acadêmico-científico.
Vera da Silva Sinha